Objeto, corpo e território: Remapeando coleções amazônicas no Museu Britânico através da museologia compartilhada
Este projeto piloto é o primeiro a abordar sistematicamente as coleções do Museu Britânico dessa região tão vasta e diversa para além das fronteiras nacionais que têm buscado fragmentá-la desde o período colonial. O projeto fará isso promovendo o estudo e a reinterpretação das coleções amazônicas por meio de uma série de iniciativas comunitárias em colaboração com líderes locais, pesquisadores, artistas, educadores, associações e instituições parceiras ativas na região. O objetivo é desenvolver a cocuradoria de novas exposições na atual vitrine da Amazônia, na Galeria Wellcome Trust – a qual está articulada ao redor da “Relação com os animais” -, bem como a documentação participativa de coleções armazenadas na reserva técnica, promovendo a autorrepresentação, as narrativas indígenas e o reconhecimento de conhecimentos ancestrais e práticas materiais tradicionais.
Com base no diálogo intercultural, o projeto situa o “território” em primeiro plano como um conceito-chave para compreender o presente e o futuro dos modos de vida indígenas, desafiando a concepção comum e equivocada de que os povos amazônicos são primitivos e estão congelados no passado. Ao dialogar com os modos indígenas de ver o mundo, este projeto questiona o modo como os museus veem os objetos enquanto inanimados em vez de entidades vivas. O projeto também pretende desafiar a forma como a Amazônia tem sido frequentemente representada em museus como uma região desconhecida e exótica, dividida por fronteiras nacionais nas periferias de diversos países da América do Sul. Muito ao contrário, este remapeamento permite reposicionar a Amazônia no centro de um continente e no cerne do debate global sobre a emergência climática, em cuja luta os povos indígenas têm se destacado por seu protagonismo.
“Relating to animals” (“Relação com os animais”) – Exposição permanente da Amazônia na Galeria Wellcome Trust (G24), inaugurada em 2021, no Museu Britânico. Foto: Ana Blumenkron.
Objeto como território: remapeando coleções por meio do diálogo intercultural
Este projeto se propõe a desenvolver uma pesquisa transdisciplinar, atravessando fronteiras disciplinares e reunindo diferentes sistemas de conhecimento: acadêmico, artístico, ancestral e memória coletiva. Ao incorporar cosmovisões de comunidades indígenas e tradicionais no estudo das coleções, este projeto busca não apenas cocriar conhecimento, mas também gerar lições relevantes sobre práticas compartilhadas de museologia e gestão de acervos (ver Lima Filho & Porto 2019). Essas lições do Sul estão profundamente enraizadas na ontologia das mulheres indígenas do “corpo como território” (ver Baniwa et al. 2023) e nos princípios coletivos do bem viver (Sumak Kawsay/Buen Vivir). Em essência, elas têm o potencial de abrir novos caminhos para a decolonização dos museus, reforçando o papel social das coleções para a reconciliação e justiça museológica.
O que se segue são alguns dos projetos colaborativos e iniciativas desenvolvidas em torno de coleções amazônicas na região. Cada um, à sua maneira, propõe reflexões significativas sobre como destacar a importância do processo de criação e dos elementos da natureza como partes inseparáveis dos objetos; como objetos podem servir para o fortalecimento da identidade étnica no contexto de comunidades deslocadas, ambientes urbanos e narrativas de extinção; e como a juventude indígena tem encontrado nas coleções museológicas um recurso para reativar e preservar o conhecimento salvaguardado por seus anciãos, avós e sábios.
Ilha do Bananal, Brasil
Rio Juruá, Brasil
Vale do Rio Negro, Brasil
Fronteira Brasil-Guiana
Rio Ucayali, Peru
Rio Napo, Equador
Rio Cachorro, Brasil
Suriname
(em breve)
Objeto como corpo: construindo relações por meio da requalificação participativa de acervos
Este projeto busca ampliar a visibilidade e o acesso compartilhado aos acervos amazônicos do Museu Britânico, facilitando e promovendo a interação e o reencontro de comunidades indígenas e seus descendentes com a coleção, enquanto desenvolve a digitalização, pesquisa de proveniência e atualização de informações no banco de dados online do Museu. O projeto também pretende construir e fortalecer relações e parcerias locais na região amazônica através da cocuradoria das coleções, incorporando perspectivas indígenas e vozes da contemporaneidade. O remapeamento dessas coleções estabelecerá as bases para identificar as fortalezas do acervo e para abordar lacunas em termos de representação, lançando luz sobre novos caminhos para futuras pesquisas colaborativas.
Estudo das coleções Iny-Karajá. Foto: Louise de Mello, 2024.
Os principais resultados do projeto incluem:
Colaboradores e Participantes
Ixydinodu (cacique tradicional) da aldeia Santa Isabel do Morro, uma das principais aldeias Iny-Karajá. Casado com Ixysé Karajá e genro de Kaimote Kamaiura. É responsável pelos rituais da aldeia e conduz o principal ritual Iny-Karajá, o hetohoky, a iniciação masculina. Tem interesse no tema das coleções e desde que assumiu a chefia em Santa Isabel do Morro tem atuado como interlocutor de diferentes projetos relacionados a museus etnográficos e etnológicos.
Artesã e especialista em adornos plumários. É casada com Sokrowé Karajá, filha de Kaimote Kamaiurá e de Maluaré Karajá que foi uma importante liderança Iny-Karajá de Santa Isabel do Morro. Junto a Sokrowé Karajá é parte da família que ocupa a instituição do cacique tradicional em Santa Isabel do Morro atuando na confecção da vasta cultura material imprescindível para a execução dos rituais na aldeia. Acumula longo histórico de diálogo e interlocução com museus etnográficos e etnológicos no Brasil e mais recentemente no exterior envolvendo temas como plumária, cerâmica, trançado e outros.
Antropólogo e pesquisador colaborador do Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional (SEE/MN), Rafael Andrade foi pesquisador associado do SDCELAR entre 2024-2025. Doutor em Antropologia Social (MN-UFRJ), Rafael realizou pós-doutorado no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás (MA-UFG) e foi consultor para a nova exposição temporária do Museu Nacional/UFRJ com experiência nas áreas de Sociologia e Antropologia em temas como etnologia, antropologia política, etnicidade, cultura material, coleções etnográficas e museus.
Ykaruni Nawa, indígena Nawa (Acre), é jornalista, curador e antropólogo. É doutorando no Museu Nacional/UFRJ, onde obteve um mestrado em Antropologia Social e tem colaborado como curador das coleções etnográficas desde 2020. Ykaruni é cofundador da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) e atualmente atua como repórter na DPU, promovendo visibilidade e representatividade para povos indígenas.
Roseane Cadete é historiadora e educadora Wapichana que atua no ecossistema do lavrado (savana) de Roraima, Brasil. Possui especialização em História Amazônica pela Universidade Estadual de Roraima (UERR) e mestrado em Sociedade e Estudos de Fronteira pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). Roseane Cadete é apaixonada por mostrar histórias Wapichana através da arte. Sua dedicação à educação, pesquisa, história e arte é testemunho de seu compromisso com a cultura, conhecimento e narrativas Wapichana, bem como seu empenho em conectar narrativas passadas e presentes.
Gustavo Caboco é artista visual Wapichana do Brasil, que trabalha na rede Paraná-Roraima e nos caminhos do retorno à terra. Sua produção com desenho-documento, pintura, texto, bordado, animação e performance propõe formas de refletir sobre os deslocamentos de corpos indígenas e sobre a produção e retomada da memória. Caboco participou da 34ª Bienal de São Paulo (2021) e foi um dos três curadores indígenas do Pavilhão Hãhãwpuá representando o Brasil na 60ª Bienal de Veneza (2024). Foto: © Naine Terena, 2023
Whitner FaGo é artista de Hip Hop Shipibo Konibo da região do Ucayali na Amazônia peruana. Sua música rap Shipibo compartilha com o público as histórias e memórias de seus avós, transformando-as em rimas e letras. Suas canções colocam a tradição Shipibo em diálogo com lutas comunitárias contemporâneas e questões globais, como a importância da conservação ambiental e da identidade cultural, do território e o papel da educação. Recentemente lançou seu primeiro álbum, “NON AXEBO” (“Nossa Cultura”), com 15 músicas, e seu segundo álbum se titula “ANCESTRALES” (“Ancestrais”). FaGo participou de eventos organizados pelo Ministério da Cultura do Peru, bem como apresentações internacionais incluindo a XIII Conferência Bienal da SALSA (Sociedade para a Antropologia das Terras Baixas da América do Sul) e a primeira Bienal Internacional de Arte Amazônica, entre outras.
Roxana Davila, também conhecida como Chana Davila, pertence à comunidade Shipibo-Konibo e atua em Pucallpa, na Amazônia peruana. Desde cedo, aprendeu a sabedoria de sua cultura, a importância de proteger o lar, o valor da família e a importância de lutar pelos direitos. Tem se dedicado a desenvolver oficinas sobre questões de gênero junto à juventude na região amazônica do Ucayali. Além disso, Roxana encontrou uma forma de fazer sua voz ser ouvida através das canções de Masha (Ikaros Shipibos), que são ressignificadas e expressas em hip-hop. Ao se associar com FaGo, Roxana transmite consciência sobre questões como resistência, perseverança e amor.
Viviana Buitrón Cañadas é geógrafa e pesquisadora especializada em conservação da biodiversidade e governança, recursos naturais e sustentabilidade a partir de perspectivas multiescala, de gênero e interétnicas, utilizando métodos qualitativos e participativos. Formou-se em Ciências Geográficas e Desenvolvimento Sustentável, com especialização em Planejamento Territorial pela Universidade Católica Pontifícia do Equador. Obteve seu doutorado pela Universidade FAU de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha. Até 2022, havia atuado como coordenadora científica e gerenciadora de dados para o projeto FLACSO-FAU-DAAD sobre Governança da Biodiversidade em Reservas da Biosfera na Amazônia, Andes e Galápagos no Equador. Também possui experiência de ensino no Equador, Alemanha e Espanha. Viviana colaborou como pesquisadora com a Escola de Políticas Públicas da Universidade de Calgary em um projeto sobre as interrelações entre políticas de conservação e extrativismo. Desde 2023, é pesquisadora associada da Universidade de Santiago de Compostela e, em 2025, desenvolveu uma estadia de pesquisa com o SDCELAR no Museu Britânico.
Napu Runa, líder Kichwa, ex-presidente do Povo Kichwa de Rukullakta (PKR) entre 2016 e 2018, Medardo Shiguano é supervisor comunitário, tendo fortalecido o processo organizacional e a gestão territorial das 17 comunidades que compõem a organização. Destacou-se por seu compromisso com a conservação de florestas nativas e a promoção dos direitos coletivos de nacionalidades indígenas. Também participou ativamente da CONFENIAE. Sua gestão esteve vinculada a processos organizacionais, ao Sistema de Informação Territorial (SIT), ao Conhecimento Ancestral e à Agenda Amazônia Sustentável. Atualmente colabora no projeto de Conservação Comunitária da Biodiversidade Aquática na Bacia do Rio Napo, com apoio da The Nature Conservancy (TNC) (2021 a 2025) e outras organizações, incluindo a PKR.
Fran Baniwa é doutora em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Pertence ao povo Baniwa da Terra Indígena do Alto Rio Negro. É a primeira mulher indígena a publicar uma monografia antropológica no Brasil. Seu livro: “Umbigo do mundo” (Dantes Editora, 2023), é uma jornada através de histórias e mitos que revelam a cosmologia do povo Baniwa. Fran também colabora na curadoria do Museu dos Povos Indígenas no Brasil, onde coordena o projeto “Vida e arte das mulheres Baniwa: um olhar de dentro para fora” em parceria com a Unesco.
Artista indígena nascido na aldeia de Dari, em Barcelos (Amazonas, Brasil), Denilson Baniwa mescla elementos ancestrais e contemporâneos em sua arte para destacar desafios enfrentados por indígenas e resistir a narrativas coloniais. Usando diversos meios, manipula imagens para revelar histórias indígenas marginalizadas. Seu trabalho, exibido globalmente, critica o colonialismo enquanto reflete experiências indígenas contemporâneas. Exposições de destaque incluem a 22ª Bienal de Sydney, Centro Cultural São Paulo e Pinacoteca de São Paulo, curadorias para o Museu Quai Branly, em Paris e para o Fórum Humboldt, em Berlim, tendo apresentado uma grande mostra na Universidade de Princeton em 2024. Também foi um dos curadores do Pavilhão Hãhãwpuá, representando o Brasil na 60ª Bienal de Veneza.
Jamille Pinheiro Dias é diretora do Centro de Estudos da América Latina e Caribe e co-diretora do Centro de Pesquisa em Humanidades Ambientais da Escola de Estudos Avançados da Universidade de Londres, onde também trabalha como professora. Também é afiliada ao Amazon Lab da Universidade Duke. Sua pesquisa é dedicada à interseção entre as Humanidades Ambientais, as artes e ativismo indígenas, com foco na Amazônia brasileira.
Descendente Macuxi de Roraima (Brasil) e curador do Museu Nacional dos Povos Indígenas/FUNAI. Especialista em Políticas Indígenas, Daniel Lira foi participante do Programa Internacional de Treinamento (ITP) do Museu Britânico em 2025. Na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), anteriormente atuou como coordenador de disseminação científica e coordenador nacional do projeto UNESCO para a preservação do patrimônio cultural e linguístico dos povos indígenas.
Diretor do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás e professor associado da UFG. Manuel é pesquisador do CNPq e colaborador sênior da Universidade de Brasília, além de professor do Mestrado e Doutorado em Direitos Humanos na UFG, onde já coordenou outros programas de pós-graduação. Representante da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) no Comitê Gestor de Museus do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Manuel realizou estágios pós-doutorais e de pesquisa no Museu Nacional/UFRJ (FAPERJ), na Washington University of Saint Louis, EUA (Fulbright-CAPES), no The College of William and Mary, EUA, na Harvard University, University of Chicago, na Smithsonian Institution e na Rockfeller Library/Colonial Williamsburg Foundation (EUA).
Cheryl White é professora na Universidade Anton de Kom do Suriname, Faculdade de Humanidades, onde é fundadora e coordenadora de arqueologia. Cheryl realizou seu mestrado e doutorado na Universidade da Flórida, EUA, e é egressa do Programa Fulbright do Departamento de Estado dos EUA. Iniciou seu trabalho profissional no Museu Americano de História Natural em Nova York, EUA. Ela tem atuado como consultora da Diretoria de Cultura do Governo do Suriname, Serviços Arqueológicos, e orienta em questões relacionadas a pesquisa acadêmica e avaliações arqueológicas do setor privado. Seus interesses de pesquisa de longo prazo são mobilidade, sedentarismo, padrões de assentamento e materialidades da Diáspora Africana; conforme expressos na paisagem quilombola (Maroon) e arqueologia de plantations.
Daniel Greenfield-Campoverde é venezuelano-americano, e artista visual, cineasta e designer de exposições com base em Londres, Reino Unido. Como designer, Daniel realizou exposições para galerias e instituições culturais de destaque na Europa e nas Américas. Seus clientes incluem: The New Museum for Contemporary Art (Nova York, NY), Pérez Art Museum (Miami, FL), Frieze Art fair, MASSMoCA (North Adams, MA), Smithsonian Freer Sackler (Washington, DC), Mor Charpentier (Paris), Luhring Augustine Gallery (Nova York), The Hill Art Foundation (Nova York), e artistas individuais como Christopher Wool, Carlos Motta e Simone Leigh.
Instituições parceiras
Para continuar lendo:
Publications related to women’s and maternal health with Wixárika communities by the author of this exhibition
Gamlin, Jennie B. (2013)
Shame as a barrier to health seeking among indigenous Huichol migrant labourers: An interpretive approach of the “violence continuum” and “authoritative knowledge”
Social Science and Medicine 97 75-81
Gamlin, Jennie B. (2023)
Wixárika Practices of Medical Syncretism: An Ontological Proposal for Health in the Anthropocene
Medical Anthropology Theory 10 (2) 1-26
Gamlin, Jennie B. (2020)
“You see, we women, we can’t talk, we can’t have an opinion…”. The coloniality of gender and childbirth practices in Indigenous Wixárika families
Social Science and Medicine 252, 112912
Jennie Gamlin and David Osrin (2020)
Preventable infant deaths, lone births and lack of registration in Mexican indigenous communities: health care services and the afterlife of colonialism
Ethnicity and Health 25 (7)
Jennie Gamlin and Seth Holmes (2018)
Preventable perinatal deaths in indigenous Wixárika communities: an ethnographic study of pregnancy, childbirth and structural violence BMC
Pregnancy and Childbirth 18 (Article number 243) 2018
Gamlin, Jennie B. and Sarah J Hawkes (2015)
Pregnancy and birth in an Indigenous Huichol community: from structural violence to structural policy responses
Culture, health and sexuality 17 (1)
Publicaciones relacionadas a mujeres y salud materna con comunidades wixárika, por la autora de esta exhibición
Gamlin, Jennie B. (2013)
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Medical Anthropology Theory 10 (2) 1-26
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Social Science and Medicine 252, 112912
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