Objeto, corpo e território:
Remapeando coleções amazônicas no Museu Britânico
através da museologia compartilhada

BY LOUISE DE MELLO, SANTIAGO VALENCIA PARRA, CLARA RUIZ | POSTED IN Amazônia, Todos Os Projetos

Um levantamento preliminar no banco de dados online do Museu Britânico revelou que suas coleções amazônicas são vastamente subestimadas e podem ser até dez vezes maiores do que se pensava.

Este projeto piloto é o primeiro a abordar sistematicamente as coleções do Museu Britânico dessa região tão vasta e diversa para além das fronteiras nacionais que têm buscado fragmentá-la desde o período colonial. O projeto fará isso promovendo o estudo e a reinterpretação das coleções amazônicas por meio de uma série de iniciativas comunitárias em colaboração com líderes locais, pesquisadores, artistas, educadores, associações e instituições parceiras ativas na região. O objetivo é desenvolver a cocuradoria de novas exposições na atual vitrine da Amazônia, na Galeria Wellcome Trust – a qual está articulada ao redor da “Relação com os animais” -, bem como a documentação participativa de coleções armazenadas na reserva técnica, promovendo a autorrepresentação, as narrativas indígenas e o reconhecimento de conhecimentos ancestrais e práticas materiais tradicionais.

Com base no diálogo intercultural, o projeto situa o “território” em primeiro plano como um conceito-chave para compreender o presente e o futuro dos modos de vida indígenas, desafiando a concepção comum e equivocada de que os povos amazônicos são primitivos e estão congelados no passado. Ao dialogar com os modos indígenas de ver o mundo, este projeto questiona o modo como os museus veem os objetos enquanto inanimados em vez de entidades vivas. O projeto também pretende desafiar a forma como a Amazônia tem sido frequentemente representada em museus como uma região desconhecida e exótica, dividida por fronteiras nacionais nas periferias de diversos países da América do Sul. Muito ao contrário, este remapeamento permite reposicionar a Amazônia no centro de um continente e no cerne do debate global sobre a emergência climática, em cuja luta os povos indígenas têm se destacado por seu protagonismo.

“Relating to animals” (“Relação com os animais”) – Exposição permanente da Amazônia na Galeria Wellcome Trust (G24), inaugurada em 2021, no Museu Britânico. Foto: Ana Blumenkron.

Objeto como território: remapeando coleções por meio do diálogo intercultural

Este projeto se propõe a desenvolver uma pesquisa transdisciplinar, atravessando fronteiras disciplinares e reunindo diferentes sistemas de conhecimento: acadêmico, artístico, ancestral e memória coletiva. Ao incorporar cosmovisões de comunidades indígenas e tradicionais no estudo das coleções, este projeto busca não apenas cocriar conhecimento, mas também gerar lições relevantes sobre práticas compartilhadas de museologia e gestão de acervos (ver Lima Filho & Porto 2019). Essas lições do Sul estão profundamente enraizadas na ontologia das mulheres indígenas do “corpo como território” (ver Baniwa et al. 2023) e nos princípios coletivos do bem viver (Sumak Kawsay/Buen Vivir). Em essência, elas têm o potencial de abrir novos caminhos para a decolonização dos museus, reforçando o papel social das coleções para a reconciliação e justiça museológica.

Ilha do Bananal, Brasil

Rio Juruá, Brasil

Vale do Rio Negro, Brasil

Fronteira Brasil-Guiana

Rio Ucayali, Peru

Kichwa

Rio Napo, Equador

Rio Cachorro, Brasil

Maroon

Suriname
(em breve)

Objeto como corpo: construindo relações por meio da requalificação participativa de acervos

Estudo das coleções Iny-Karajá. Foto: Louise de Mello, 2024.

Os principais resultados do projeto incluem:

  • Organização do evento “Reinterpretando a Amazônia: perspectivas Baniwa sobre curadoria indígena“, em parceria com CLACS, Universidade de Londres, junho de 2024.
  • Apoio ao primeiro representante indígena da América Latina a participar do Programa de Treinamento Internacional (ITP) do Museu Britânico – Entrevista publicada no Blog do Museu Britânico em janeiro de 2024.
  • Cocuradoria da primeira rotação da exposição permanente da Amazônia na Galeria Wellcome Trust, amplifica narrativas e perspectivas das próprias comunidades e colaboradores.
  • Organização de oficina ‘Conexão Ancestral: um encontro ao redor da cerâmica Shipibo-Konibo’ liderada por mulheres Shipibo-Konibo sobre práticas ancestrais do fazer e saber ceramista e transmissão de conhecimento, em parceria com a Multiversidade Bakish Mai e o Shipibo-Conibo Center, em San Francisco de Yarinacocha na Amazônia peruana.
  • Contribuição para a criação de um centro de interpretação comunitário liderado pelo Povo Kichwa de Rukullakta (PKR), no território PKR na Amazônia equatoriana.
  • Compartilhamento digital de todos os dados e imagens produzidas de coleções relacionadas aos povos indígenas no Brasil com o Museu Nacional/UFRJ, contribuindo para a refundação do seu acervo após o incêndio de 2018, através de sua futura plataforma virtual de acesso aberto: Etnomuseu.
  • Publicação em coautoria na Enciclopédia de História da América Latina de Oxford [previsto para 2026].

Colaboradores e Participantes

Instituições parceiras

Publications related to women’s and maternal health with Wixárika communities by the author of this exhibition

 

Gamlin, Jennie B. (2013)
Shame as a barrier to health seeking among indigenous Huichol migrant labourers: An interpretive approach of the “violence continuum” and “authoritative knowledge”
Social Science and Medicine 97 75-81

Gamlin, Jennie B. (2023)
Wixárika Practices of Medical Syncretism: An Ontological Proposal for Health in the Anthropocene
Medical Anthropology Theory 10 (2) 1-26

Gamlin, Jennie B. (2020)
“You see, we women, we can’t talk, we can’t have an opinion…”. The coloniality of gender and childbirth practices in Indigenous Wixárika families
Social Science and Medicine 252, 112912

Jennie Gamlin and David Osrin (2020)
Preventable infant deaths, lone births and lack of registration in Mexican indigenous communities: health care services and the afterlife of colonialism
Ethnicity and Health 25 (7)

Jennie Gamlin and Seth Holmes (2018)
Preventable perinatal deaths in indigenous Wixárika communities: an ethnographic study of pregnancy, childbirth and structural violence BMC
Pregnancy and Childbirth 18 (Article number 243) 2018

Gamlin, Jennie B. and Sarah J Hawkes (2015)
Pregnancy and birth in an Indigenous Huichol community: from structural violence to structural policy responses
Culture, health and sexuality 17 (1)

Publicaciones relacionadas a mujeres y salud materna con comunidades wixárika, por la autora de esta exhibición

Gamlin, Jennie B. (2013)
Shame as a barrier to health seeking among indigenous Huichol migrant labourers: An interpretive approach of the “violence continuum” and “authoritative knowledge”
Social Science and Medicine 97 75-81

Gamlin, Jennie B. (2023)
Wixárika Practices of Medical Syncretism: An Ontological Proposal for Health in the Anthropocene
Medical Anthropology Theory 10 (2) 1-26

Gamlin, Jennie B. (2020)
“You see, we women, we can’t talk, we can’t have an opinion…”. The coloniality of gender and childbirth practices in Indigenous Wixárika families
Social Science and Medicine 252, 112912

Jennie Gamlin and David Osrin (2020)
Preventable infant deaths, lone births and lack of registration in Mexican indigenous communities: health care services and the afterlife of colonialism
Ethnicity and Health 25 (7)

Jennie Gamlin and Seth Holmes (2018)
Preventable perinatal deaths in indigenous Wixárika communities: an ethnographic study of pregnancy, childbirth and structural violence BMC
Pregnancy and Childbirth 18 (Article number 243) 2018

Gamlin, Jennie B. and Sarah J Hawkes (2015)
Pregnancy and birth in an Indigenous Huichol community: from structural violence to structural policy responses
Culture, health and sexuality 17 (1)

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