Salvaguardas: arqueologia nas cavernas de Rurópolis na Amazônia brasileira

Rock painting in cave 110. Photo by Vinicius Honorato.

BY Vinicius Honorato, POSTED IN All Projects, Amazon

A geologia e a geomorfologia da Amazônia dificultam a formação de cavernas e outras cavidades rochosas.

Os escudos geológicos do Brasil e da Guiana são formados principalmente por rochas metamórficas, enquanto a bacia do Amazonas é formada a partir de rochas sedimentares. O resultado disto é que as formações não carbonáticas são as mais comuns na área, as quais são menos susceptíveis aos processos geomorfológicos que dão lugar à formação de cavernas. Por exemplo, enquanto pedras como calcário ou giz tendem a desenvolver cavidades durante seu processo de decomposição, as formações que não possuem altos níveis de carbono produzem paisagens nas quais os abrigos rochosos as cavernas são escassas. 

Encontramos uma exceção a essa regra no município de Rurópolis, no estado do Pará, onde conseguimos registrar 56 cavernas. Destas, 55 foram formadas a partir de arenito (uma pedra não carbonática). A caverna restante, conhecida como Caverna Paraísoé a única caverna de calcário do Amazonas e é conhecida como a caverna mais extraordinária da região. Também estou interessado na Caverna das os, que apresenta pinturas rupestres em uma área escura e que fica aproximadamente 350 metros da entrada. Pintura rupestre em áreas escuras é pouco comum, motivo pelo qual Rurópolis se tornou uma área única para pesquisas.  

Rock engraving and painting in cave 110 by Vinicius Honorato

Rock engraving and painting in cave 110 by Vinicus Honorato

Em 2014, entrei para a equipe do projeto “Rock art and archaeological context in the caves of RuropolisPara”, dirigido pela arqueóloga Edithe Pereira (Museu Paranaense Emílio Goeldi) e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Realizamos uma escavação na caverna 110, que contém pinturas rupestres e petróglifos. Este é o primeiro trabalho arqueológico realizado nas cavernas de Rurópolis até hoje. As cinco datações de radiocarbono feitas no lugar mostram eventos relacionados ao uso do fogo que datam entre 8.100 e 6.800 anos atrás. Nenhum objeto arqueológico foi encontrado na vala da escavação, mas o carvão nas camadas mais antigas pode indicar presença humana na caverna. Formulamos, como possibilidade, que a caverna era usada para fins rituais, mas não foi possível associar diretamente a pintura rupestre às amostras colhidas, embora saibamos que as pinturas têm pelo menos 2.220 anos, uma vez que o carvão extraído dessa camada cobria parcialmente as pinturas.  

Para a próxima fase do projeto, retornaremos a Rurópolis para continuar explorando as cavernas e para realizar escavações de teste. O objetivo é ter uma ideia mais clara do potencial arqueológico da área e aprofundar as questões já explicadas. Após nossa avaliação inicial, tomaremos amostras da superfície e faremos valas de escavação de 1 m x 1 m. Isso vai nos permitir coletar cultura material e carvão para entender melhor a cronologia da área.